Depositphotos 26594615 s 2019 imagem para o curso Trauma Resiliencia e Superacao na Clinica Psicologica

Dr. Antonio Maspoli

                            

  “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento

passar, vale    a pena ter nascido.

Fernando Pessoa

Prefácio

 Cuidado!

Não é um livro de autoajuda sobre depressão.      

A depressão tem ceifado vidas, roubado existência, destruído famílias, arruinados carreiras. A depressão ganhou destaque na mídia nesses tempos de pandemia. Escrevemos esse livro para voce, que sofre de depressão, para voce quem tem alguém deprimido na família, ou mesmo é amigo de um deprimido. E também para voce psicólogo, psicoterapeuta, analista, médico, ou líder espiritual que lida diariamente com a depressão e acolhe o deprimido, contudo, não espere um livro de autoajuda.

          Falando francamente se voce quer um livro de autoajuda e eles ajudam mesmo, sugiro a leitura deautores consagrados nessa importante área da psicologia positiva.

          O lema desse livro, contudo é outro: não há almoço grátis! Logo não espere soluções mágicas ou fáceis. O programa que desenvolvemos é o resultado das pesquisas mais modernas sobre depressão. E exigirá muito do voce para alcançar algum resultado prático. Além disso apresentamos também um programa de enfrentamento da depressão em 13 pontos testado há mais de vinte anos em nossa clínica.

          Antes de continuar a leitura essas poucas páginas respondam a pergunta: até quanto voce esta disposta a investir em termos de tempo, comprometimento e dedicação para o enfrentamento da depressão?

           Se mesmo depois desse alerta voce ainda continuar a leitura, boa leitura!

Depressão a doença do século?

           A depressão está na ordem do dia. Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2009) e publicados pelo jornal O Estado de São Paulo aponta que nos próximos vinte anos a depressão deve se tornar a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde, incluindo câncer e doenças cardíacas.

            Segundo a OMS, a depressão será também a doença que mais gerará custos econômicos e sociais para os governos empresas, devido aos gastos com o tratamento para a população, faltas ao trabalho e as consequentes perdas de produção (DEPRESSÃO, a quinta doença mais comum no Brasil. O Estado de São Paulo, São Paulo, 31 de março de 2010).

         A depressão encontra-se no topo da lista das doenças incapacitantes do mundo. Entre tratamento, remédios, demissões e absenteísmo no trabalho causados pela depressão estima-se que são gastos anualmente um trilhão de reais.

         Boa leitura!

São Paulo, Primavera de 2021.

Antonio Maspoli

COMPREENDEDENDO A DEPRESSÃO NO CENARIO MUNDIAL

          Depressão nas estatísticas da OMS

           Atualmente, mais de 450 milhões de pessoas são afetadas diretamente por transtornos mentais ligados a depressão, a maioria delas nos países em desenvolvimento, segundo a OMS. As informações foram divulgadas durante a Primeira Cúpula Global de Saúde Mental, realizada em Atenas, na Grécia.

           Em todo o mundo, os deprimidos são milhões. As estatísticas mais recentes da OMS indicam que 5% da população sofre de depressão, com prevalência das mulheres [4,5 a 9,3%] sobre os homens [2,3 a 3,2%].

          Aproximadamente, dois em cada dez casos de depressão prolongam-se no tempo, tornando-se crônicos. Nas mulheres, a frequência da cronicidade é quatro vezes maior do que nos homens. Os períodos de prevalência da depressão são mais comuns no sexo feminino, sendo 3,2% no feminino e 1,9% no masculino. Estima-se que 5,8% dos homens e 9,5% das mulheres passarão por períodos depressivos em 12 meses.

          A depressão contínua afeta de 15% a 20% das mulheres e de 5% a 10% dos homens. Em 20% dos casos, a depressão segue um curso contínuo, especialmente quando não há tratamento adequado.

         Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizados em 2015 e divulgados em 2016, indica que, em 2013, 10,2% dos brasileiros com 18 anos ou mais que estavam fora do mercado de trabalho (um em cada dez) sofriam de algum tipo de depressão, de um total de 61,8 milhões de pessoas que não trabalhavam, nem procuravam emprego – em um universo de 93 milhões de empregados.

         Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional de Saúde 2015 – Indicadores de Saúde e Mercado de Trabalho. O levantamento contabilizava, na época, a existência de cerca de 160 milhões de pessoas integrando a População em Idade Ativa (PIA) do país, em um universo de 200,6 milhões de pessoas, segundo o Censo 2010.

Esses números cresceram assustadoramente pandemia atual do coronavírus. Hoje 33% da população sofre de alguns transtornos mentais com prevalência de cerca de 10% para a depressão.

        O que não é depressão

         Depressão não é tristeza.

         Tristeza é um sentimento e condição típica dos seres humanos, caracterizado pela falta da alegria, ânimo, disposição e outras emoções de insatisfação. Tristeza é uma emoção e um sentimento muito típico dos seres humanos, caracterizado pela falta da alegria, ânimo, disposição e outras emoções de insatisfação.

          A tristeza pode-se apresentar em diferentes graus de intensidade, variando desde a tristeza passageira, que normalmente dura alguns minutos ou horas, à tristeza profunda, que pode persistir por vários dias ou semanas, além de ser um sinal de problemas mais complexos, como a depressão. Em Baruch Espinoza, a tristeza é definida justamente como o ato no qual nossa potência de agir é diminuída ou contrariada

        Toda tristeza tem uma causa bem definida no tempo e no espaço. O sujeito sabe exatamente quando, onde e porque ficou triste. Já a depressão pode apresentar a tristeza como sintoma, mas nesse caso, a tristeza não tem uma causa específica e conhecida. Na depressão a tristeza e inespecífica e sua causa é desconhecida.

        Tristeza é uma situação de estresse. A tristeza é um estresse intenso e profundo. A tristeza pode acontecer por uma perda, por uma dor, por um trauma, por uma doença.  Às vezes, pelo envelhecimento, pelas circunstâncias da vida. A tristeza é uma dor e tem uma causa determinada. A pessoa sabe exatamente quando, como e porque ficou triste, como por exemplo, na tristeza do luto. O problema é que se a tristeza não se reverte num período de seis meses a um ano, num um período natural de luto, pode se transformar numa depressão. 

          Depressão não é angústia.

           Depressão não é angústia. A angústia, todavia, pode ser um sintoma clássico da depressão. Não existem definições precisas da angústia. A angústia é a dor de estar vivo.  Quando você percebe que está vivo, e percebe todas as implicações de existir, de ser, quando percebe a dor de estar no mundo como uma pessoa, às vezes, essa consciência dói muito.  Dâmaris Cristina de Araujo Malta (2014) escreveu um texto profundo sobre Angústia, fé e sentido da vida.

           A angústia pode ser criativa. A angústia, quando não paralisa e encontra sentido, pode se transmutar num motor para a realização do ser e de projetos pessoais, os mais diversos. A angústia pode gerar arte, música, literatura, espiritualidade, produção etc.

“A angústia possibilita a movimentação do Ser em busca de um sentido, não estamos nos referindo à angústia paralisante presente em muitos quadros clínicos de depressão, e sim à angústia provocativa, a que incomoda o Ser.” (MALTA, 2014, p. 179).

Depressão e suicídio

       Depressão é irmã siamesa do suicídio. Do número total de deprimidos, 30 % tentarão o suicídio pelo menos uma vez na vida.  10%, destes 30% tentarão o suicido até dar cabo da própria vida.  No Brasil, são cerca de 20 milhões, 30% por cento dos 20 milhões de deprimidos, 30% de vinte milhões, dá um total de 6 milhões. Dos 6 milhões 10% vai tentar suicídio até consumar o ato, ou seja, 600 mil pessoas.

Depressão e saúde

           A depressão baixa o sistema imunológico e isso aumenta o risco do desenvolvimento de doenças graves.

          A relação entre depressão e saúde é muito profunda. O risco de uma pessoa com depressão enfartar, é 4 vezes maior do que uma sem depressão. A depressão afeta o sistema cardiovascular, afeta o sistema respiratório, e ela afeta principalmente o sistema imunológico. Os deprimidos são susceptíveis a alergias, mais susceptíveis a inflamações, as infecções relacionadas as doenças autoimunes, como Lúpus, por exemplo.  Existem inúmeras doenças autoimunes (hipotireoidismo, hipertireoidismo, Lúpus os reumatismos, as artrites, as artroses etc.).

              Algumas pessoas com depressão, potencializa o risco de desenvolver outras enfermidades, porque o sistema imunológico permanece severamente afetado pela depressão. Uma queda no sistema imunológico prejudica todo o sistema de defesas do organismo.

Para que serve esse livro?

          Este livro       Cara a Cara Com o Enfretamento da Depressão foi escrito para esclarecer o leitor sobre os principais aspectos relacionados com a depressão. A depressão? O que caracteriza uma pessoa deprimida? Quais os sentimentos de um deprimido?  Existe cura para a depressão? Como tratar o deprimido? Quais os sintomas da depressão? Quais as estratégias para o enfretamento da depressão? Como o suicídio se relaciona com a depressão?

          A fim de responder a estas e a outras perguntas inquietantes, escrevi este livro. Esta obra nasce da experiência do autor, de mais de dez anos como professor de psicopatologia na Faculdades de Psicologia do Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação (IBMR) no Rio de Janeiro; e na Faculdade de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Nasce também da vivência do autor nos mais de trinta anos de experiencia na clínica psicológica no atendimento direto com pessoas deprimidas.

EMOÇÕES E SENTIMENTO DA DERPESSÃO

Os sintomas da depressão são muito variados. Os mais comuns são: humor deprimido; irritabilidade; ansiedade e angústia; desânimo e cansaço; apatia e desinteresse; medo e insegurança; vazio e desesperança; dificuldade em sentir prazer em atividades anteriormente prazerosas; autoestima baixa; ideias desproporcionais de culpa; alterações de sono; alterações de peso; dificuldade de concentração e atenção; esquecimentos frequentes; vontade de deixar de viver; ideias de suicídio. Outros sintomas que podem vir associados aos sintomas centrais são: pessimismo; dificuldade de tomar decisões; dificuldade para começar a fazer suas tarefas; irritabilidade ou impaciência; agitação; achar que não vale a pena viver; desejo de morrer; chorar sem motivo; boca ressecada; perda do desejo sexual. Se o sujeito apresenta cinco ou mais desses sintomas pode estar deprimido.

            Ausência de amor

         O deprimido sofre pela ausência de amor. Ele não se sente amado e não ama. Não ama a Deus, não ama a si mesmo e, na maioria das vezes, sente medo e ansiedade diante do amor demonstrado pelo outro. O deprimido também não consegue amar o próximo. Vive aprisionado aos próprios medos, angústias, ansiedades, desilusões e decepções reais ou imaginárias. A depressão é a imperfeição no amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero.

         Quando estão bem, alguns indivíduos deprimidos amam a si mesmos, alguns amam outros, alguns amam o trabalho e alguns amam a Deus: qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito, que é o oposto da depressão.

          O amor nos abandona de tempos em tempos e nós abandonamos o amor. Na depressão, a falta de significado de cada empreendimento e de cada emoção, a falta de significado da própria vida torna-se evidente. O único sentimento que resta nesse estado despido de amor é a insignificância.

            Depressão é solidão.

Não aquela solidão natural a todo ser humano. É uma solidão maior. Trata-se daquela solidão diante do outro, o próprio Inferno de Dante. “É a solidão dentro de nós que se torna manifesta, e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar apaniguadamente apenas consigo mesmo” (SOLOMON, 2002, p. 15).

A depressão destrói a paz, o amor-próprio e a segurança pessoal. Abala a fé e a esperança no futuro. É a mais segura das prisões humanas. O deprimido desacredita no amor, na fé e na esperança e mergulha no mais silencioso e terrível dos desesperos humanos: o desespero acompanhado, aquele que não acredita, não suporta e nem aceita a ajuda de outrem.

          Depressão é tristeza infinita

            O deprimido sente uma tristeza infinita. Uma espécie de banzo. Não sabe por que está triste. Não tem controle sobre a própria tristeza. Está triste e pronto! Ter-se uma boa razão para a tristeza é bom; se não tiver motivo, melhor. O depressivo chora. Chora profundamente. Soluça! Não sabe por que chora. Chora com motivo ou sem motivo. O choro é acompanhado de uma dor profunda, que nasce no fundo da alma. Dor que dilacera o coração, que derrama a vida como um balde despejado. O sorriso desaparece no rosto do deprimido. A face do deprimido é uma máscara de dor e sofrimento. Às vezes é somente uma cara inexpressiva, neutra, sem sentimento, a cara da depressão

           Depressão é monotonia

          A vida do deprimido é monótona.Parece mais um sonho em preto e branco, ou melhor, um filme em branco e preto. O tempo arrasta-se em uma sucessão de eventos sem lógica, sem sentido, aprisionado no chronos. A vida não tem sentido. O trabalho não faz sentido. O dia parece apenas como uma sucessão de fatos marcados pelos atos rotineiros de comer, beber, dormir e acordar. Acordar para fazer tudo novamente!

           Depoimento do Sujeito A [mulher, 35 anos]:

“Depressão. É cinza, sem sabor, sem cor, sem brilho, sem vida… É o que sentimos. Nada faz sentido, nada tem valor, nada é bonito, nada importa. A sensação da morte presente sim é algo muito real, porque a gente se sente, morto-vivo e vivo-morto. E tudo que lembra a morte é mais familiar e mais desejado que qualquer outra coisa. Sintomas? Dores terríveis, sensação de fim, uma tristeza inexplicável, apatia total às coisas da vida, não se tem vontade de fazer absolutamente nada. Só de morrer, devagarinho, pedindo que o mundo nos deixe em paz. Um sofrimento sem razão de ser, mas com feridas profundas. De onde vem? Não sei explicar. Não tem explicação. Tudo é tristeza, tudo é um vão, vazio. Um poço sem fundo…”

           Depressão é fracasso

           O fracasso é o melhor companheiro daquele que padece de depressão. Sente-se fracassado o tempo todo. Acaricia o fracasso como a um amigo íntimo. Não divisa possibilidade alguma de sucesso. Este mais parece uma miragem! Não tem autoconfiança. A vida é uma areia movediça. E parece esvair-se aos seus pés. Parece que Deus se diverte em culpá-lo, castigá-lo, feri-lo, humilhá-lo.

          Depressão é baixa autoestima

           O amor-próprio desaparece. Em seu lugar, fica aquele sentimento de vazio que todo deprimido conhece. A depressão gera insônia. O deprimido troca o dia pela noite. O sujeito deprimido passa a ter hábitos noturnos. Quando a noite cai, principia a acordar, quando o dia amanhece, começa a dormir.

         Depressão é irritação

 O deprimido é irritadiço. Neurastênico mesmo. Não tem domínio sobre as próprias emoções. Não tem paciência. Perde a cabeça com facilidade. Explode à toa! Não sabe a origem da própria irritação e nem precisa. Está sempre irritado, e isso basta!

          Depressão é fadiga e apatia

          O melhor lugar do mundo, o mais aconchegante, o mais macio, o mais confortável, o mais confiável é a cama. O deprimido tem a cama presa às suas costas. Ele e a cama são irmãos siameses. Quando consegue dormir, não quer mais acordar. O sono aparece como o último refúgio. E a insônia gera irritação.

          A depressão esparrama a concentração e fragiliza a vontade. O deprimido não consegue se concentrar nas atividades mais simples da vida cotidiana. Também não sente vontade de fazer nada. Sua concentração é dispersa e sua vontade é frouxa, difusa, nula. Ele começa inúmeros projetos, contudo não persevera em nenhum. Tem muita dificuldade em levar um projeto até o fim. Sua sexualidade torna-se descontrolada. Geralmente, não tem vontade de manter relações sexuais, o interesse pelo sexo praticamente desaparece. Quando a vontade ressurge, contudo, é exagerada, sem limites… O deprimido, às vezes, pode oscilar entre dois extremos: da pureza à libertinagem.

           Depressão culmina namoro om a morte

           A depressão culmina no namoro com a morte, que aparece, na maioria das vezes, como a única saída. O deprimido sabe que alguma coisa está morrendo em si mesmo. Não sabe o que é e, por isso, acredita que a morte pode acabar com tudo que está errado de uma só vez.     Finalmente, o risco de suicídio não deve ser subestimado. Em torno de 25% dos deprimidos, que não são devidamente tratados, tentam pôr termo à vida, e cerca de metade consegue levar a cabo os seus intentos.

            Os deprimidos que se suicidam têm baixos níveis de serotonina no cérebro e a carência desse neurotransmissor pode favorecer comportamentos depressivos e agressivos, potencializando o risco de suicídio. Com tratamento correto, 70% a 90% dos pacientes deprimidos recuperam-se.

Depoimento do Sujeito B: (mulher, 28 anos)

“Há pouco mais de um ano, comecei a conviver com uma assustadora melancolia. O primeiro sintoma foi o isolamento. Quem me conhecia desconfiava da minha ausência em festas e reuniões de amigos. Ficar em casa ouvindo músicas tristes era o que me satisfazia. Sentia tanta dor, inclusive física, pela somatização de angústias, que no início, mesmo com a ajuda de um terapeuta, uma psiquiatra e vários medicamentos, não conseguia me ver longe daquele abatimento.

Acreditava que minha vida era como um teatro no qual eu inventava meus personagens e apresentava uma péssima atuação. Passei por tantos estágios de aflição que cheguei a ponto de tentar suicídio e ser internada em uma clínica psiquiátrica. Minha família sofreu junto comigo.”

Depressão é transtorno alimentar

           Há alterações do apetite [mais comumente a perda do apetite, podendo também ocorrer o seu aumento]. Muitas vezes, a pessoa precisa esforçar-se para comer, ou ser ajudada por terceiros a se alimentar. Algumas formas específicas de depressão são acompanhadas do aumento de apetite [hiperfagia], o qual se mostra caracteristicamente aguçado por açúcar e doces.

           Depressão é ansiedade

           A depressão é entremeada por estados de ansiedade, que não têm hora para aparecer. É um inimigo oculto e comum a todo deprimido. A ansiedade, às vezes, produz exaltação, irritação, fome, paralisação. Todo estado de ansiedade generalizada esconde uma depressão, escamoteia um luto. As crises de ansiedade geradas pela Síndrome do Pânico obnubilam geralmente um quadro depressivo grave.

          Metaforicamente, a depressão é um túnel do qual parece impossível sair; um abismo cinzento que engole a vontade de viver; o vazio, a angústia que aperta a garganta; uma solidão sem fim. Um poço sem fundo que teima em atrair o deprimido para o seu interior desconhecido.

          Depressão é culpa

Culpabilidade – consiste em ideias de falta, de mancha, de pecado. Tais ideias manifestam-se por meio de um sentimento de indignidade perante Deus e a vida. No campo religioso predomina o sentimento de ter ofendido a santidade de Deus, de impureza moral e espiritual, de ter infringido as leis do Criador. Este pesquisador acompanhou alguns religiosos com essa disfunção, os quais acreditavam que haviam cometido um pecado mortal, ou seja, um pecado que não tem perdão. Nesse caso, esta convicção de pecado e a sensação de punição iminente da parte de Deus são causadas pela depressão e não por um ato moral.

Depressão é frustração

Ideias de frustração – geralmente apresentam sentimentos de ruína, de desgraça real ou imaginária. O deprimido pressente que o infortúnio, a doença, a ruína o espreitam. No campo religioso prevalece o sentimento de desamparo divino. Deus o abandonou. Encontra-se a mercê da sua própria sorte e está certamente não lhe sorri. Quando a depressão é acompanhada de crises de pânico, o deprimido tem a sensação de morte iminente. Pressente que vai morrer a qualquer hora, em qualquer lugar. Tal sensação acentua-se quando o deprimido experimenta qualquer vislumbre de felicidade; aí, os pensamentos e ideias delirantes de morte surgem para acabar com qualquer possibilidade de alegria de viver.

Depressão é hipocondria

Ideias hipocondríacas – o deprimido as vezes sente-se doente, vive a expectativa de adquirir uma doença quase sempre incurável. Busca constantemente o médico. Solicita diversos exames. Seus intestinos estão afetados, sua respiração é problemática, seu coração pode sofrer um colapso. O deprimido pressente a morte. A morte o espreita e trama contra ele com uma enfermidade que a qualquer momento o acometerá. Se surge uma doença nova, esta já está crescendo em suas entranhas. Se um amigo morre de alguma enfermidade, está também o levará desta para a outra vida. Este pesquisador ouviu de um hipocondríaco a seguinte narrativa: “Doutor, sofro de muitas doenças. Asma, bronquite, rouquidão. Problemas de fígado. Problemas nos rins. Problemas do coração. Basta surgir uma doença nova e eu pego” [sic].

Depressão é sentimento de possessão

           Ideias de influência e possessão – sentem-se vazios e possuídos por alguma força ou influência maligna. Às vezes, acreditam estar possuídos pelo demônio. Em algumas versões do cristianismo   a depressão é o resultado da possessão demoníaca e deve ser tratada com o exorcismo. Se o sujeito não está possesso, encontra-se pelo menos oprimido, o que dá no mesmo.

             Depressão é negacionismo

 Ideias de negação – As ideias culminam quase sempre com o tema da negação. Negação do mundo, negação do corpo, negação da vida e da morte. Negação da realidade. O deprimido mergulha em uma espécie de caverna emocional. Lá, vivencia toda sua dor e sofrimento. É um lugar de refúgio contra o mundo e seus males, contra a realidade e seus ataques(1 REIS  19: 1-9).

Depressão é sentimento de inutilidade

          Pode-se afirmar que, para alguns deprimidos, descrever a sensação de inutilidade, tristeza, angústia é quase inútil, porque tal vivência no interior da alma do deprimido significa que qualquer coisa se rompe subitamente e faz cair a vida em pedaços, sem deixar qualquer saída. E, ao mesmo tempo, o sofrimento é tão grande que o isola quase que completamente do mundo exterior, a ponto de parecer que os outros não conseguem compreender o tormento interior que dilacera a sua existência. A depressão, nesses casos, produz aquele sentimento de estranhamento diante do mundo e do outro, que todo deprimido conhece muito bem. Episódios depressivos e quadros de depressão podem acontecer em todas as fases do desenvolvimento humano.

          Quando uma pessoa apresenta conjuntamente e ao mesmo tempo seis ou mais desses sintomas acima, certamente estará deprimida.  Cód:

DEPRESSÃO NA PSIQUITARIA

            A depressão é uma enfermidade classificada pelo CID-10 (CID-10, 1993) na categoria dos transtornos do humor e deve ser considerada uma doença. O tempo de duração do surto, sua intensidade e persistência variam de acordo com o tipo de depressão classificada. É uma enfermidade marcada por crises episódicas, ou seja, tende a se repetir, produzindo, por isso, frequentes recaídas e recidivas. Consiste, no século XXI, em uma das doenças mais comuns da era moderna, embora seja conhecida desde a antiguidade. A transição entre a concepção mágico-religiosa da doença para uma compreensão da enfermidade como fenômeno natural foi longa e ocorreu no Mediterrâneo, especialmente no Egito e na Grécia.

          O que é depressão

          Depressão [do latim depressione] é uma palavra frequentemente utilizada para descrever uma gama imensa de sentimentos negativos e sombrios. Em primeiro lugar, depressão não é um estado de tristeza profunda, nem desânimo, preguiça, estresse ou mau humor. A depressão é diferente da tristeza, pois a tristeza geralmente tem uma causa conhecida e duração determinada no tempo e no espaço. Já a depressão envolve uma gama de sentimentos difusos de longa duração no tempo e no espaço, geralmente relacionados à angústia.

           A depressão, enquanto evento psiquiátrico e psicológico, é algo bastante diferente da tristeza. O grande problema na diferenciação da tristeza em relação à depressão consiste na prevalência da tristeza como sintoma da depressão. Metaforicamente, a depressão é um túnel do qual parece impossível sair; um abismo cinzento que engole a vontade de viver; o vazio, a angústia que aperta a garganta; uma solidão sem fim. Um poço sem fundo que teima em atrair o deprimido para o seu interior desconhecido.  A depressão tem muitos nomes, todos terríveis. Eu prefiro denominá-la eclipse da alma. Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana.

Depressão, a evolução do conceitos

A psiquiatria, tal como a conhecemos hoje, começou com a Stultifera Nave em fins da Idade Média. O Renascimento considerava a melancolia uma espécie de loucura parcial em oposição aos transtornos gerais da inteligência, o que não implicava, forçosamente, a ocorrência da tristeza.  Esquirol distinguia no grupo de loucuras parciais ou monomanias, uma monomania propriamente dita com um elemento de tristeza. Esta era denominada lipemania. O significado do termo melancolia, na Antiguidade Clássica, difere muito do que se utilizou no campo psiquiátrico desde o século XX. Naquela época, melancolia significava o rompimento da harmonia entre os humores do organismo, tendo como predomínio a bile negra [Melanio Chole]. O termo histórico não se referia aos sintomas afetivos, como ocorre atualmente.

                      Na atualidade, o descobrimento de medicamentos antidepressivos colocou a medicação em primeiro plano no tratamento da depressão. Outro passo significativo para o tratamento da depressão, após o aparecimento, por volta dos anos 1950, dos primeiros fármacos antidepressivos, deve-se a um Prêmio Nobel, o americano Julius Axelrod, que, em 1960, descobriu as substâncias que permitem a transmissão dos impulsos nervosos [neurotransmissores]. Graças a essa descoberta, deu-se um passo à frente no conhecimento da noradrenalina e da serotonina, e foram desenvolvidos outros fármacos [tricíclicos e inibidores das monoaminoxidases], até se chegar aos modernos, inibidores seletivos da recaptação da serotonina (SSR)I, aos inibidores seletivos da recaptação da noradrenalina (NSRIs) etc.

           Depressão como deserdem cerebral

A psiquiatria moderna compreende a depressão como sendo uma desordem do funcionamento cerebral que afeta e compromete o funcionamento normal do organismo, com reflexos ou consequências na vida pessoal em seus aspectos emocionais ou psicológicos, familiares e sociais. A doença depressiva deve, portanto, ser examinada sob o ponto de vista biológico, genético, cognitivo, social, econômico, espiritual e da história pessoal. A depressão corresponde a um estado de doença no qual o cérebro e a mente têm seu funcionamento normal alterado e a personalidade do paciente sofre as consequências. Dizendo de outra forma, a depressão tem sua base biológica nas alterações bioquímicas e depende de condições psicológicas do meio ambiente para ser desencadeada.

AS VÁRIAS FACES DA DEPRESSÃO

A depressão é uma medusa de muitas faces. Senão vejamos.

Uma classificação mais completa é aquela oferecida por Henry Ey (1965, p. 184 – 226:)  e Pedro Gomes Alvarenga(2008, p. 141 – 190) que classificou  as depressões a partir do curso da melancolia aguda simples e dos estados de mania nos seguintes quadros: Transtorno Bipolar; Depressão Melancólica Simples; Depressão Maior; Melancolia Estuporosa; Melancolia Ansiosa; Distimia; Melancolia Delirante. A classificação dos transtornos depressivos   segue abaixo descrita:

Transtorno bipolar

Basicamente, existem as depressões monopolares [este não é um termo usado oficialmente] e a depressão bipolar [termo oficial]. O transtorno afetivo bipolar se caracteriza pela alternância de fases depressivas com fases maníacas, de exaltação, alegria ou irritação do humor. A depressão monopolar só possui uma fase, a melancolia. Aparece como uma forma depressiva da doença bipolar, anteriormente chamada de psicose-maníaco-depressiva. Os pacientes depressivos bipolares são aqueles que alternam episódios de mania ou agitação com estados de melancolia geralmente na mesma intensidade.

O transtorno bipolar, antiga psicose maníaco depressiva (PMD) alterna episódios de melancolia com estados alterados de mania. No entanto podem ocorrer transtorno bipolar apenas com o estado de mania, segundo o DSM-IV. Durante a fase de depressão ou melancolia o sujeito apresenta todos os sintomas e sentimentos da depressão. Durante a fase de mania os sentimentos apresentam se alterados com prevalência de agitação, irritação, raiva, ódio, hostilidade e as vezes até agressividade. Vejamos as principais características da mania no transtorno bipolar:

Onipotência simbólica – neste estado o sujeito pode tudo. Sente -se igual a Deus. Torna-se uma personalidade forte, enérgica, cheia de força e vitalidade. Apresenta um otimismo exagerado. E uma força descomunal.

Os processos cognitivos estão alterados. O sujeito pensa o tempo todo e raciocina com rapidez. Ao mesmo tempo é tomado pela fuga de ideias.

O paciente fala com rapidez e loquacidade. O desejo sexual fica alterado. Os comportamentos compulsivos são frequentes: jogar sem avaliar os ricos; comprar e gastar sem avaliar as consequências: comer exageradamente; autoestima exagerada; insônia sem o sentimento da necessidade física de dormir; distração e perda da atenção; fixação em atividades compulsivas, o trabalho por exemplo; atividade sexual em excesso.

Depressão Melancólica Simples

Depressão Melancólica Simples. Caracteriza-se pelo surgimento de crises de tristeza e escassez de dor moral profunda. Geralmente, as crises ocorrem em intervalos de seis a sete meses. Na Antiguidade, esse quadro era denominado de melancolia com consciência.  O buraco negro da depressão pode manifestar-se sob diversas formas, pois não existe uma depressão, mas sim depressões. Compete ao psiquiatra identificar os vários tipos e prescrever o tratamento adequado. O sujeito apresenta-se apático, neurastênico, fatigado. Apresenta ainda impotência diante da vida, improdutividade intelectual. O indivíduo sente-se enfermo e tem necessidade de conforto.

Depressão Maior

 Depressão Maior. Esta forma é caracterizada por humor deprimido, em que o indivíduo comunica por meio da fala, da mímica e do comportamento, uma vivência de dor e abatimento [manifesta um aumento da irritabilidade, acessos de cólera, frustração, tristeza etc.]. Essa vivência é diferente da tristeza normal, a que cada um pode estar sujeito nas situações desfavoráveis da vida, tanto em intensidade e duração como pela sua natureza; além disso, contrariamente ao que sucede na tristeza normal, o indivíduo atingido por essa forma de depressão mostra-se insensível ao encorajamento, à amizade e ao amor.

Outros sintomas associados a esses são: diminuição ou desaparecimento do interesse e do prazer em todas, ou quase todas, atividades habituais, com a presença do companheiro ou dos filhos; o desporto; a música; os hobbies. Ocorre o abrandamento da atividade psíquica e motora, que leva o deprimido a falar pouco e a mover-se pouco, lentamente e com dificuldade; falta de energia; sentimento de inadaptação, inutilidade, desespero, sentimento de culpa; falta de apetite e perda de peso; perturbações do sono [sofre de insônia quase total ou de despertar matinal precoce; pensamentos de morte e, por vezes, ideias ou tentativas de suicídio]. Os períodos de depressão têm início e fim, mais ou menos, identificáveis e, entre um período e outro, o indivíduo deprimido sente-se bem. Cada episódio pode manifestar-se espontaneamente ou após determinados momentos de estresse.

Melancolia Estuporosa ou Catatônica

            Melancolia Estuporosa ou Catatônica. Esta forma alcança seu ápice na total inibição psicomotora. O deprimido fica absolutamente imóvel, a chamada imobilidade cérea: não fala, não come, não produz nenhum gesto, nenhum movimento. Sua face permanece fixa em uma expressão de dor e desespero. Essa mímica de tristeza facilita o diagnóstico diferencial dos outros quadros depressivos. Na esquizofrenia catatônica o paciente pode permanecer sentado, imóvel, com as mãos sobre os joelhos, dorso e cabeça curvado, na posição fetal ou como múmia. Na catatonia o paciente mostra uma expressão facial vazia, mas com rápida circulação e batimentos cardíacos, sugestivo de medo e o olhar pode mover-se rapidamente como de forma persecutória.

          Geralmente a pessoa com o episódio agudo de esquizofrenia catatônica não apresenta maiores resistências e aceita ser encaminhado e internado em um hospital. Após a internação é comum apresentar negativismo. O sujeito porta-se de forma rígida quando examinado e flexibilidade cérea, ou seja, se o sujeito é colocado numa posição incomum, o paciente retém esta posição por um certo tempo, depois, como se fosse uma estátua de cera derretendo, o membro vai retornando à sua posição normal de forma lenta. Esse comportamento representa uma suspensão da vontade, a qual se expressa também pela ecolalia e ecopraxia.

          Melancolia Ansiosa

             Melancolia Ansiosa. Esta forma se caracteriza pelo predomínio da agitação ansiosa, pela intensidade do medo, o qual é vivenciado, às vezes, como Síndrome de Pânico. O sujeito, nesse estado, tem necessidade de mudar de lugar, mexe com as mãos, lamenta, soluça, geme, súplica. Geralmente a ideia de que vai morrer ou de algo terrível estar para acontecer acompanha esses sentimentos.  Esta forma de depressão tem frequentemente origem em traumas e disfunções no seio da família. A depressão ansiosa é muito sensível aos fármacos e a psicoterapia. A ansiedade pode ser uma das manifestações da melancolia. 

           Distimia.

Distimia. O termo distimia indica uma forma de depressão ligeira, crônica, que perdura por um período mais longo. Embora, qualquer um possa sentir-se desmoralizado, desmotivado, triste ou inadaptado, quem sofre de distimia tem sintomas depressivos quase diariamente e durante grande parte do dia, por um período mínimo de dois anos. Esses indivíduos podem ainda demonstrar baixa autoestima; comer e dormir mais ou menos do que o habitual; sentir-se fatigadas; ter dificuldade em se concentrar ou tomar decisões e experimentar uma sensação de desespero. Tais sintomas, porém, são menos graves do que os da depressão maior.

Melancolia delirante

            Melancolia delirante. Esse quadro depressivo apresenta as seguintes características: a) uma tonalidade afetiva penosa e sofrida; b) ideias monótonas, o sujeito repete sempre as mesmas ideias de forma repetitiva; c) as ideias delirantes são fracas e geralmente são mais ricas em emoções do que em intelecção; d) apresentam conteúdos passivos, o sujeito aceita sua tragédia pessoal como uma sina, um destino, uma predestinação; e) os delírios apresentam referência ao passado [recriminações, remorsos etc.] ou ao futuro [temor, ansiedade etc.]. Os temas das ideias delirantes mais frequentes são:

Outros tipos de depressão:

Ciclotimia

          A ciclotimia pressupõe uma clivagem no estado de humor. Nenhum de nós apresenta um humor totalmente retilíneo ou estável. Todos apresentam flutuações que dependerão de inúmeras variáveis, como as condições do meio exterior, clima, estresse, excesso de informações, problemas circunstanciais, oscilações hormonais, condições de sono, perdas, ganhos, idade etc. Uma pessoa portadora de um quadro de ciclotimia apresentará instabilidade persistente de humor, que pode variar do estado de exaltação do humor ou euforia ao estado de depressão e mau humor. São sintomas característicos da ciclotimia: a aceleração mental, euforia, irritabilidade, tagarelice, sentimentos de onipotência e grandiosidade, insônia e diminuição do senso crítico, alternados com sintomas do espectro depressivo. Um diagnóstico de distimia por sua vez, deve basear-se nos seguintes critérios:

b) pelo menos dois dos seguintes sintomas durante os momentos de depressão:  falta ou excesso de apetite;  mais ou menos sono em relação ao habitual; perda de energia ou fadiga; diminuição da autoestima; dificuldade em se concentrar ou tomar decisões;  sensação de desespero;  nenhum episódio maníaco ou hipomaníaco; ausência de outras perturbações mentais [por exemplo, esquizofrenia]; os sintomas não são imputáveis ao uso de substâncias químicas [drogas ou fármacos] ou a doença [por exemplo, hipotireoidismo]Profundo sofrimento ou comprometimento das atividades quotidianas

Depressão traumática ou reativa

 Depressão traumática ou reativa. Esta depressão caracteriza-se pela existência de uma razão concreta, geralmente a perda de um ente querido, a perda do emprego, a perda de um amor, as perdas naturais das crises de desenvolvimento da vida adulta etc. A melancolia, nesse caso, expressa o luto do sujeito pela dor que está sentindo. A dor e o luto são reações naturais que podem desaparecer ao longo do processo de elaboração da perda. Sua duração é diretamente proporcional ao sentido e ao valor do objeto perdido para o sujeito. Registra-se, todavia, que um luto natural não deve passar de um ano. Quando isso ocorre, a depressão reativa neurótica já afetou aquelas estruturas neurais responsáveis pela produção e captação de serotonina e endorfina e torna-se, portanto, necessário buscar ajuda. Esse é o único caso em que a depressão pode ser tratada apenas pela psicoterapia. Recomenda-se, todavia, para apressar a recuperação do paciente, o atendimento multidisciplinar.

A depressão também pode ocorrer por fatores climáticos. Nos países nórdicos no inverno, ocorrem mais casos de depressão e suicídio do que no verão. Tal ocorrência é chamada de transtorno de humor sazonal. O transtorno de humor sazonal é uma depressão que se inicia no outono ou inverno e se caracteriza por sintomas depressivos, como ter menos prazer, menos interesse, ficar triste. Mas se caracteriza também por ter muito sono, mais apetite e uma predileção por carboidratos. A falta de luminosidade pode afetar regiões do cérebro responsáveis pelo relógio biológico. Banho de luz ajuda a solucionar o problema. Em tais casos, pesquisas precisam ser ainda realizadas para se verificar se o clima gera, ou simplesmente potencializa a depressão.

         POSSIVEIS CAUSAS DA DEPRESSÃO

             Depressão é genética? Ou adquirida?

         As duas coisas. A depressão tanto pode ser genética quanto adquirida

           A depressão também pode ter um componente hereditário.  A depressão seria então decorrente de fatores ambientais sobre indivíduos geneticamente predispostos.  “Estima-se que a carga genética contribua com aproximadamente 40% do impacto da predisposição individual à depressão (a concordância entre gêmeos monozigóticos é de 40 a 50 %, e a transmissibilidade genética é estimada em 33% a 42%)”( ALVARENGA E ANDRADE, 2008, P. 151).

A depressão de grande mal, o transtorno bipolar tem raízes profundas na genética do sujeito. Os aspectos biopsicossociais envolvidos são fatores precipitadores da doença. Quando um dos avós ou progenitores do sujeito sofre de depressão o risco da incidência da doença varia entre 25 a 50%. A existência de deprimidos na família é um fator importante, inclusive no diagnóstico da depressão.

          De fato, verificou-se que essa doença tende a se apresentar mais frequentemente no seio dos elementos de uma mesma família. Essa teoria foi confirmada por vários estudos realizados em filhos de pais que sofriam de perturbações de humor, criados por pessoas não afetadas por esses problemas; verificou-se que tais indivíduos apresentavam perturbações de humor que nunca tinham se manifestado nos pais adotivos.

          Pode-se afirmar que, para todos eles, descrever a sensação de inutilidade, tristeza, angústia é quase nula, porque tal vivência no interior da alma do deprimido significa que qualquer coisa se rompe subitamente e faz cair a vida em pedaços, sem deixar qualquer saída. E, ao mesmo tempo, o sofrimento é tão grande que o isola completamente do mundo exterior, a ponto de parecer que os outros não conseguem compreender o tormento interior que dilacera a sua existência. A depressão, nesses casos, produz aquele sentimento de estranhamento diante do mundo e do outro, que todo deprimido conhece muito bem. Episódios depressivos e quadros de depressão podem acontecer em todas as fases do desenvolvimento humano.

             Existe uma causa para a depressão?

Depressão é um transtorno multicausal. A causa exata da depressão permanece desconhecida. A explicação mais plausível aponta para um desequilíbrio bioquímico nas sinapses dos neurônios responsáveis pelo controle do estado de humor. Na depressão, bem como em todas as psicoses em geral, o sujeito sofre de alterações nas estruturas dos neurônios, mormente no funcionamento das sinapses. Tal afirmação baseia-se na comprovada eficácia dos antidepressivos. O fato de ser um desequilíbrio bioquímico não exclui tratamentos farmacológicos e psicológicos. A medicação apropriada restaura o equilíbrio bioquímico e a psicoterapia restaura o equilíbrio psicológico e pode levar a pessoa a obter uma compensação bioquímica (KAPLAN; SADOCK, 1986; 2010; GREBB, 1997, p. 80-85).

          A depressão manifesta-se quando determinados sistemas de transmissão entre as células do cérebro, ou seja, as sinapses e os mediadores químicos se alteram. Com efeito, para que o sistema nervoso funcione bem, é necessário que a transmissão das mensagens elétricas de um neurônio para outro ocorra por intermédio do ponto de contato entre uma célula e outra, que se designa por sinapse.

           Quando uma mensagem elétrica enviada por um neurônio chega à sinapse, provoca a liberação de determinadas substâncias químicas, os neurotransmissores, que funcionam como mensageiros, depois de passarem ao neurônio seguinte, onde provocam a saída de um novo sinal elétrico. Consequentemente, quando a atividade de alguns neurotransmissores se altera, podem ocorrer transmissões perturbadas. Especificamente no aparecimento da depressão são três os neurotransmissores principalmente implicados: a serotonina, a endorfina e a noradrenalina. Estes neurotransmissores são responsáveis pela sensação de bem-estar.  E podem estar envolvidos em todas as funções que se apresentam alteradas durante a depressão e que provocam os sintomas característicos desta (DAMÁSIO, 2011).      

             O estresse como gatilho da depressão 

          Parece existir correlação entre certos acontecimentos estressantes na vida das pessoas e o início de um episódio depressivo. Contudo, tais eventos não podem ser responsabilizados pela manutenção da depressão. Trabalhos recentes demonstram que mais do que a influência genética, o ambiente familiar durante a infância pode ser um dos fatores responsáveis pelos surtos depressivos.

          Os eventos estressantes, oriundos do meio, provavelmente disparam a depressão reativa nas pessoas predispostas, vulneráveis. Citamos, como exemplo, o assédio moral no trabalho, que tem sido um fator desencadeante da depressão. A relação entre etiologia, sintomas, processos bioquímicos, resposta ao tratamento e evolução dos transtornos de humor ou afetivos, ainda não é suficientemente bem compreendida para permitir sua classificação de forma a receber aprovação universal (BAHLS, 1999).  Até o momento, nenhum marcador biológico definitivo para os distúrbios afetivos foi encontrado, sendo a questão de sua classificação ainda aberta e campo de acirradas discussões).

          Depressão altera o sistema imunológico

         Existe uma forte evidência de que a depressão envolve alteração em vários aspectos da imunidade que podem, não só, contribuir para o desenvolvimento ou exacerbação de um número de distúrbios médicos, mas também pode contribuir para a patofisiológia da doença em si. Nesse sentido, a gestão agressiva de transtornos depressivos em populações clinicamente doentes ou indivíduos em situação de risco para a doença podem melhorar a evolução da doença ou prevenir o desenvolvimento da doença. Por outro lado, à luz dos dados que sugiram que os processos imunológicos poderão interagir com vias patofisiológicas para contribuir para a depressão, novas abordagens para o tratamento da depressão podem atingir os aspectos relevantes da resposta imune. Tomados em conjunto, os dados fornecem evidências convincentes de que um quadro psicoimunologico de referência pode ter implicações profundas sobre as consequências e tratamento da depressão.

         O funcionamento alterado do sistema imunológico pode contribuir para a mortalidade de pacientes depressivos, incluindo o risco de doença infecciosa e distúrbios inflamatórios. Algumas pessoas com depressão apresentam reduções de celulares e as respostas imunológicas que são associadas com a susceptibilidade à doença infecciosa. Conforme mencionado acima, outros estudos relatam que a depressão está relacionada com a ativação imunológica a em pacientes com distúrbios inflamatórios tais como a artrite reumatoide.

A depressão também pode representar a perda da energia vital reprimida – orientada contra o próprio self – trazendo em si uma tendência para o suicídio; tristeza; fuga das pressões da realidade – [de] pressão – incapacidade de viver e mesmo de morrer; bloqueio da ira, da sexualidade e da agressividade; medo de responsabilidades; fuga da realidade; fuga da vida; fuga da morte.

Essa perda de energia se reflete no organismo como um todo. Na depressão a força muscular diminui, pois, os músculos não mais comportam tônus algum. O peristaltismo intestinal fica reduzido; o rendimento cardíaco permanece comprometido e a sexualidade diminui, a respiração fica mais lenta e mais difícil. A depressão afeta sobretudo a imunidade do sujeito.

         TREZE PASSOS PARA O ENFRETAMENTO DA DEPRESSÃO

A depressão, segundo Carl Gustav Jung, pode ser a melhor condições do sujeito dentro  das circunstancias e dos relacionamentos em ele vive.  (JUNG, 1980).  

Andrew Solomon, na obra O demônio do meio-dia, uma anatomia da depressão, lista inúmeras formas de tratamentos existentes. O tratamento da depressão, atualmente, recomenda a utilização de algumas estratégias conjugadas: a) tratamento psicofarmacológico; b) tratamento psicoterápico ou psicológico; d) qualidade de vida; c) acolhimento do grupo família e da comunidade d) atividade física

A partir de mais de vinte anos de pesquisa e da análise de uma vasta bibliografia, esse autor resumiu os trezes passos num programa essencial para o enfretamento da depressão.

Primeiro passo – aceitar a depressão como uma condição humana natural. 

 As pessoas adoecem, sofrem e se deprimem e as vezes morrem, por que são pessoas humanas. Todo ser humano é passível de sofrimento e de enfermidades. No mais das vezes, a própria depressão pode representar uma estratégia de adaptação às mudanças naturais da vida adulta, como doenças, desemprego, perdas, transformações bruscas da vida cotidiana etc.

Para muitos deprimidos a depressão é um último lugar de refúgio. Aquele castelo sombrio, frio e tenebroso, porém, conhecido que sobrou. Onde o indivíduo sente- se seguro diante das lutas e exigências da vida cotidiana de uma sociedade cada vez mais sem alma e sem coração.

Segundo passo – mude seu modo de pensar para mudar o seu modo de agir.

           Se voce já tentou de tudo e não superou a depressão, mude radicalmente a sua forma de pensar sobre voce mesmo e sobre a vida.  

          Existe uma ligação profunda entre sentimentos e pensamentos e entre pensamentos e sentimentos. Os sentimentos influenciam sua maneira de pensar, e os pensamentos afetam seu modo de sentir. Por exemplo: você se sente péssimo e fica pensando em coisas ruins. Os seus sentimentos serão modulados por estes pensamentos negativos, e seu humor se tornará negativo.  Se você aprender a pensar de modo diferente, se sentirá também de outro modo. O próprio processo de pensar, o hábito de pensar, as coisas em que pensamos alteram o humor e são alterados pelo humor. O problema consiste em que o mau humor traz como consequência mais pensamentos negativos, que, por sua vez, agravam os sentimentos, formando um círculo vicioso com os pensamentos negativos num processo de retroalimentação contínuo.  (DAMÁSIO, 2011).

          Por isso brinque com os pensamentos pessimistas da depressão.  Se puder zombe especialmente daqueles pensamentos que o deprimem. O deprimido desenvolve a tendência de considerar seus pensamentos poderosos, mágicos mesmo. Pensamentos são apenas pensamentos, eles não têm tanto poder como o deprimido imagina.

          Existem métodos e técnicas apropriadas para mudar o modo de pensar como a imaginação ativa, o diálogo interno, o transe ericksoniano, a ressignificação etc.

Terceiro passo – busque ajuda psiquiátrica.

 O terceiro passo no tratamento é consultar o médico psiquiatra ou neurologista, que irá estabelecer as causas bioquímicas da depressão. O médico precisa reconhecer os sintomas e saber por quanto tempo você tem se sentido deprimido. A visita pode incluir um exame físico e testes laboratoriais. Assim, os problemas físicos podem ser descartados, e o médico poderá fazer um plano de tratamento efetivo.

Atendimento médico, medicação antidepressiva, psicoterapia, apoio da família e amigos são meios eficazes no tratamento. Orientação, entendimento e cuidados nas dosagens das medicações são os passos fundamentais. Seu médico e ou psicólogo poderá fazer algumas perguntas, tais como: Alguém em sua família sofre de depressão? Você está tomando algum medicamento? Você sofreu alguma alteração ou perda importante em sua vida? Você tem tido alterações no sono ou no apetite? Você tem pensado em morte ou suicídio? Você tem dificuldade de se concentrar no trabalho? Você tem sentido mudanças no desejo sexual? .

             A depressão é uma doença a não subestimar, mas que se pode tratar com ótimos resultados, recorrendo aos meios mais seguros e eficazes. O diagnóstico de depressão é, de fato, um primeiro passo ao qual se deve seguir a identificação exata do tipo de depressão e a reconstrução da história do doente, a fim de que o problema seja devidamente enquadrado. Só quando o médico está na posse desses dados pode prescrever o tratamento.

            Os fármacos antidepressivos atuam sobre os sistemas do cérebro que regulam a transmissão nervosa e, concretamente, sobre os neurotransmissores serotonina e noradrenalina, que estão diretamente envolvidos na origem da depressão. O princípio que está na base do seu funcionamento é o de aumentar o nível desses mediadores químicos, potencializando os seus efeitos em nível cerebral e reequilibrando, no tempo, os mecanismos neuronais alterados pela doença.

          Quarto passobusque a ajuda de um psicoterapeuta.

          A depressão produz alterações neurológicas, bioquímicas e psicológicas. Na crise de depressão, o paciente deve ser encaminhado para a psiquiatria (KAPLAN; SADOCK; GREBB, 1997, p. 320-324). Após a necessária e devida medicação, deve ser conduzido também para o tratamento psicológico. O tratamento psicológico é recomendado especialmente quando o remédio começa a produzir seus efeitos e o paciente começa a melhorar. Fierz afirma que “Ademais, o problema psicológico ligado à depressão não é solucionado com drogas, sendo, com frequência simplesmente reprimida, o que naturalmente, não pode ser bom para o prognóstico de longo prazo.” (FIERZ, 1997, p. 374).

O terapeuta precisa transmitir calma e tranquilidade ao seu paciente que sofre de depressão, encarando ele próprio a depressão como um fenômeno tipicamente humano. Só as pessoas inteligentes e sensíveis sofrem desta enfermidade (FIERZ, 1997, p. 141-142). O paciente precisa restabelecer e seguir a rotina em seu dia a dia. A depressão desorganiza o sentido e a percepção do tempo. A rotina é importante para lhe devolver esse sentido. Deve ser estabelecido um programa cotidiano durante o tratamento, se possível em série com a terapia ocupacional. Em sua depressão desestruturada, o paciente caiu fora do tempo, por assim dizer, e é por isso que as horas que dividem o dia precisam se tornar novamente visíveis.

Em uma atitude absolutamente compreensiva, o paciente precisa compreender cada sintoma que se apresenta à luz da sua depressão. A compreensão dos sintomas como próprios do quadro depressivo auxilia o paciente e pode minorar o seu sofrimento psíquico.  O paciente precisa ser repetidamente examinado, e os sintomas observados devem ser descritos e explicados para ele várias vezes. Por exemplo, se o paciente descobrir que o terapeuta sabe como os deprimidos podem se sentir fisicamente fracos, ele sentirá que é compreendido. Em geral, através de exames e explicações, devemos tentar fazer com que o paciente perceba os aspectos comuns e típicos do seu estado, visto que ele se sente ameaçado por algo estranho e incompreensível.

          Existem formas de comunicação não violenta para se tratar do deprimido como por exemplo o historytelling.

Quinto passo – Aderir ao tratamento. 

Feito o diagnóstico de depressão, é importante fazer compreender ao doente que os medicamentos não têm um efeito imediato, mas que é preciso esperar pelo menos 2 ou 3 semanas até se obterem os primeiros benefícios. É, sobretudo, necessário encorajá-lo a buscar tratamento adequado. E motivá-lo a não abandonar o tratamento devido ao desconforto eventualmente provocado. Colaborar com o médico para o êxito da terapêutica pode ser útil. De fato, frequentemente, o doente não tem sequer a capacidade de concentração necessária para seguir as suas indicações. É preciso ter paciência com o doente e compreender que o seu comportamento não é voluntário. É conveniente estimulá-lo a não permanecer inativo, a cultivar interesses, mesmo que não se mostre entusiasmado.

Aplique a fórmula de redução de danos. Se voce ainda considera o tratamento um mal, considere o um mal necessário. Abrace o tratamento como uma tabua de salvação mesmo.

               Sexto passo – pratique e aceite o acolhimento familiar e comunitário. É natural que muitos familiares se desesperem diante de depressão de um membro da família. Aí tentam ajudar como sabem e como podem. Geralmente cobram uma atitude do deprimido.  Cobram força, cobram ânimo, cobram fé, exigem atitude, esperam ação, essas coisas.

             Precisa ficar claro para os familiares que falta ao deprimido aqueles mediadores químicos que geram a atitude, a coragem, a ação, a esperança, a motivação etc.  como oxitocina, a serotonina, endorfina, adrenalina etc.  a ação etc.

              Acolher a dor do deprimido me parece mais eficaz que nega-la  ou cobra-lo pela depressão.

                Convenhamos, em muitos deprimidos só lhes resta o apoio, o acolhimento e o aconchego familiar com fonte de amparo e de afeto.

Sétimo passo Não existe almoço grátis.  Ppratique   atividades físicas

Comece por onde for possível. Se só consegue caminhar cem metros, comece pelos cem metros. Comece da condição em que se encontra e como se encontra. Não existe almoço grátis. A prática da atividade física deve ser prioritária da rotina do deprimido. O exercício físico libera endorfina, que por sua vez tem importância no aumento da biodisponibilidade da serotonina.

Aqui, entretanto, há uma dificuldade adicional: um deprimido não tem vontade ou energia nem para as pequenas coisas ou atividades; não é possível, portanto, cobrar do paciente atividades físicas relevantes  no início do tratamento. É necessário esperar por uma melhora e, então, é possível começar a incentivá-lo.

O sol é bastante benéfico, pois age no organismo estimulando a liberação de hormônios como os produzidos pela suprarrenal [que serão importantes para os mediadores químicos cerebrais] e até substâncias específicas como a melatonina, importantes neuro-hormônios liberados ao anoitecer pela glândula pineal. A melatonina age como um “antidepressivo” natural e é importante na regularização do sono, além de possuir propriedades imunológicas.

Oitavo passo – Enfrente a solidão da depressão.

          Em termos psicológicos, uma melhor conceituação de solidão deve considerar pelo menos os seguintes aspectos: falta de significado e objetivo de vida; reação emocional; sentimento indesejado e desagradável; sentimento de isolamento e separação; deficiência nos relacionamentos (TAMAYO, 1984).

O que caracteriza a solidão é o seu aspecto puramente psicológico.  É o sentimento de estar só, acompanhado da constatação da separação emocional do outro.  É a falta de interação e de comunicação emocional entre um indivíduo e outro ser humano.  O outro pode, inclusive, estar próximo geograficamente; no entanto, a solidão impede qualquer aproximação psicológica, afetiva.  Como ocorre com o solitário em meio à multidão: todos estão presentes e, ao mesmo tempo, tão distantes, próximos e, todavia, separados. “A solidão não é a mesma coisa que estar só.  A solidão é sentir-se só”.

        A solidão pode produzir um sentimento de alheamento do indivíduo em relação aos demais seres humanos, levando-o a um questionamento sobre as origens e o sentimento da existência.  De onde vim?  Para onde vou? São perguntas que podem surgir nestas circunstâncias. geralmente, o sentimento psicológico de isolamento é que caracteriza a solidão.

             A solidão, às vezes, pode ser acompanhada do sentimento de angústia, produzindo um sofrimento a mais naquele que está privado de relacionamentos íntimos mais duradouros. A solidão da depressão produz deficiência nos relacionamentos. Essa é uma das características de grande parte dos solitários, que culmina por produzir uma espécie de feedback em todo o processo de solidão, realimentando.

Nono passo – participe de atividades comunitárias construtivas

O deprimido deve ser esforçar para participar de atividades lúdicas acompanhado: estar com amigos; brincar com os filhos; estar com as crianças da família; travar novos conhecimentos; desenvolver uma atividade política; desenvolver uma atividade de voluntariado; jogar cartas, damas, xadrez; comer, beber; participar de cerimônias; criticar, elogiar alguém; dar a sua própria ajuda; dar um conselho; discutir, conversar, falar; cantar em coro, recitar; dar um presente; visitar um amigo enfermo; participar das atividades comunitárias da Igreja ou da sua religião etc.

Além disso é  importante possibilitar atividades comunitárias e construtivas para o deprimido realizar sozinho: andar a pé; dar um passeio; ir a um espetáculo; ir a um parque; ir a um museu; assistir a um acontecimento desportivo; praticar desporto; correr; ir a uma conferência; fazer uma viagem; ir a uma festa; ir a uma manifestação; comprar qualquer coisa para si próprio; falar sozinho; cantarolar; projetar; programar atividades espirituais,  sociais e de laser; praticar jogos como vídeos games, palavras cruzadas; ocupar-se de animais; fotografar; filmar; refletir, pensar, meditar; contemplar; rezar; estudar; tocar um instrumento; colecionar qualquer coisa; tratar do próprio corpo; relaxar.

           Decimo passo – Não se fixe na depressão.

           Dar atenção à depressão é como agasalhar uma serpente congelada debaixo do casaco. O calor do corpo vai aquecê-la e fortalecê-la e ela irá mordê-lo em primeiro lugar. Portanto, não a negue, mas não a sente no trono de seu ser como senhora de seus sentimentos. Você não é o único deprimido no mundo. Somente no Brasil são mais de 10% da população. Sinta-se unido a todos os deprimidos do mundo. Sinta-se pertencente a essa comunidade, isso diminuirá a sensação de isolamento própria do deprimido.

          Use a depressão. Não a deixe usar você.  Você deve saber, no entanto, que quem tem depressão de natureza química ou neurológica deverá tomar medicação com o mesmo carinho e simplicidade prática com a qual um diabético toma insulina. Muitas vezes, quando se detecta quais são os elementos químicos que estão faltando no cérebro, e se faz suplementação deles por via médica. A s depressão tende a desaparecer à medida que os neurotransmissores vão se reequilibrando com a medicação apropriada. Tenho visto pessoas que sofriam de depressão crônica por décadas ficarem completamente boas de seus desconfortos, apenas fazendo reposição de elementos químicos que faltavam no corpo.

          Décimo Primeiro passo –   Seja autêntico e enfrente a sua a autopiedade.

           Seja você mesmo. Procure conhecer a si mesmo. Respeite seus limites. Estabeleça limites para si mesmo.

           Busque a natureza, o ar livre, a praia, a piscina, o sol, o pé no chão, a grama, a terra, as fontes de água, as atividades físicas, o toque, o amor, o sexo saudável, a companhia de amigos, os papos diferentes e, sobretudo, descanse no amor de Deus. Sei que uma pessoa deprimida quer se prender dentro do quarto, fechar a janela e se enterrar na escuridão, noite e dia, mas há vida lá fora esperando para acontecer!

          Não fique com pena de si mesmo. Depressão ama autopiedade. Olhe para a depressão como uma condição humana, e não como algo paralisante. A depressão consome uma grande quantidade de energia. Logo, ela concentra uma grande quantidade de energia.

             Tome os remédios próprios sem culpa e sem julgamento moral e espiritual acerca do estado para o qual eles são receitados.  Aprender a lidar com a depressão é um exercício de sabedoria espiritual. Caso não se sinta confortável com a medicação para depressão, ore pela medicação, em seguida tome os remédios passados pelo médico.

            T é uma senhora de 63 anos de idade. Relata que ficou deprimida aos 40, quando teve seu filho. Uma típica depressão puerperal agravada pela morte abrupta do pai. T nunca tratou de depressão. Afirma que a depressão arruinou a sua vida pessoal e profissional. O casamento e a carreira acabaram com a depressão.  T vive na mais absoluta solidão. Solidão esta imposta pela depressão. T passa a fazer sessão de psicoterapia. Depois de muita resistência T aceita visitar um psiquiatra. Seis meses depois T, está outra mulher. Renasceu das cinzas segundo ela. Recuperou a alegria de viver. Reaprendeu a sorrir. T lamenta ter ficado tanto tempo sem tratamento. Ela mostra-se confiante e resolve permanecer mais tempo no tratamento.

          Décimo segundo passo – Crie uma rotina, gere disciplina, imponha se uma rotina

          Existem métodos e técnicas adequadas de planejamento estratégico para a vida e a retomada daquele que está saindo da depressão.

          A mente humana consome até 20% do oxigênio produzido pelo corpo. Isso explica por que a mente é absolutamente econômica. O estado desejado da mente é a preguiça. A mente busca sempre a inercio e o repouso absoluto para economizar energia.

           Criar uma agenda, seguir uma agenda, submeter-se voluntariamente a uma agenda é uma forma natural de colocar a mente e a vida em movimento. Quem fica parado é poste.

             Um dia tem 24 horas, se voce usar 08 para dormir ainda sobram 16 horas. O tempo é um milagre que não se repete. Hoje é o valor mais caro do mercado. O tempo é mais caro. Mais caro ate mesmo do que o outro e o dólar. Outras commodities quando perdidas podem ser recuperadas. O tempo não. O minuto que passou, já não é mais.

            Decimo terceiro passo – exerce a função transcendente do seu cérebro.

           A mente humana não suporta os limites de tempo e de espaço imposto pela realidade da vida. E especialmente, o fato de que a vida tem prazo de validade, isto é, o homem nasce, vive e morre num espaço de tempo determinado.  Por isso a mente humana desenvolveu a função transcendente, cujo objetivo central é romper com os limites do tempo e do espaço e criar uma sensação de transcendência e liberdade.

             A prece, a reza e a oração, bem como as artes de um modo geral podem ser utilizadas de forma terapêutica como tratamentos paliativos para a depressão. Atividades espirituais e, ou artísticas regulares produzem o aumento da endorfina e da serotonina no cérebro e podem aliviar os sintomas da depressão. (KOEKIG< 2012).

            Os mesmos efeitos benéficos da meditação sobre a produção de serotonina podem ser encontrados na prática da prática da oração intensa. Pesquisas realizadas demonstram que as orações aumentam os níveis de serotonina no cérebro (DANUCALOV & SIMÕES, 2006, 309-310). 

Considerações Finais   

 Jung postula que a doença mental é a melhor condição da mente humana diante da realidade. A mente adoece para preservar sua própria psique, e sobreviver.  Depressão está ligada à repressão em seus aspetos regenerativos e enriquecedores. A energia psíquica volta-se para o próprio indivíduo em um processo forçado de introversão. A energia introjetada fica represada e precisa ser consumida no sofrimento, na dor, na angústia.  

          A depressão é causada por fatores bioquímicos, são os mediadores químicos do cérebro que causam a depressão. Neste caso, ou o cérebro consome mais do que produz desses mediadores, ou ele não produz o suficiente para o consumo. Os mediadores químicos como a endorfina, a serotonina, ocitocina dentre outros, são os responsáveis pela a sensação de bem-estar e prazer.

         Quando esses mediadores químicos não são produzidos adequadamente por alguma razão, por exemplo, um estresse muito forte, uma perda de um ente querido, ou mesmo, a perda de um emprego que você gosta, o sujeito pode desenvolver numa depressão profunda.  Ou às vezes, a depressão tem causas genéticas, noutras trata-se de uma depressão reativa como resposta ao estresse. Então, podemos concluir com base na neurociência que a depressão é uma doença.

           A boa notícia é que a depressão tem tratamento, controle e até mesmo cura. Além disso, o deprimido precisa de um bom neurologista, ou de um bom psiquiatra. Posto que existe no mercado, medicação eficaz contra depressão. E alguns desses medicamentos não são mais tarja preta como a Fluoxetina e a Paroxetina etc.

Todos com poucos efeitos colaterais.

         O deprimido precisa de psicoterapia, porque o mundo do deprimido é em preto e branco, é um mundo congelado, parado.  O deprimido vê a vida em preto e branco. E uma depressão que demora mais de seis meses altera a percepção que essa pessoa tem de Deus, a percepção que ela tem de si mesma e a percepção do mundo.  E altera a percepção que ela tem das outras pessoas. Daí a psicoterapia pode ser eficaz para ressignificar o sistema de relações do sujeito deprimido.

         Apresentamos também um programa de enfrentamento da depressão em 13 pontos testado há mais de vinte anos em nossa clínica.

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Antonio Maspoli

Sou Antonio Maspoli, cidadão do mundo, Teólogo e Psicólogo. Deus é a minha herança pessoal, meu caso de amor! Deus encantou-me com o a sua presença. E abriu-me as porta do conhecimento do numinoso: "Eu cri, por isso compreendi" (Agostinho). Desde então dediquei a minha vida a conhecer a Deus. E a minha existência a compreender a natureza humana.

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